O bicho que em mim habita
é algo entre o cão e o gato
Peito pra fora
atacante, entregue,
como de um cão
Peito contido
interior, consigo,
como de um gato
Sou este híbrido
latino-mialo
bichano-canilo
entre o telhado
e a casinha
"HEI DE MONUMENTAR AS POBRES COISAS DO CHÃO MIJADAS DE ORVALHO." (Manoel de Barros)
...e o que mais couber no coração de um bloguito.
terça-feira, 2 de abril de 2013
domingo, 19 de agosto de 2012
em cima de quem
Nasceu en 1949
32 anos depois já tinha a vida arranjada
salário, putas, filhos, chácara e cama
7h20 cruzava a pracinha indo,
cabelo molhado
18h32 cruzava a pracinha vindo,
testa franzida
Uma existência inteira nesta dança entre o cabelo e a testa
Na sola do sapato cego
assassinou cravínias, beijos e muitos gerânios ainda brotos
Um massacre silencioso jamais noticiado
Casas compradas, contratos assinados
esbanjos em churrascarias
e em tudo isto
a testemunha oculta selada entre a borracha e o azulejo
Morreu em 1986
Difícil é a semana em que não ornamentam seu descanso
com cravínias, beijos, gerânios e cravos
As florzinhas parecem até achar graça
desta roda gigante que é o mundo
Pintura de Isaac Liberato
32 anos depois já tinha a vida arranjada
salário, putas, filhos, chácara e cama
7h20 cruzava a pracinha indo,
cabelo molhado
18h32 cruzava a pracinha vindo,
testa franzida
Uma existência inteira nesta dança entre o cabelo e a testa
Na sola do sapato cego
assassinou cravínias, beijos e muitos gerânios ainda brotos
Um massacre silencioso jamais noticiado
Casas compradas, contratos assinados
esbanjos em churrascarias
e em tudo isto
a testemunha oculta selada entre a borracha e o azulejo
Morreu em 1986
Difícil é a semana em que não ornamentam seu descanso
com cravínias, beijos, gerânios e cravos
As florzinhas parecem até achar graça
desta roda gigante que é o mundo
Pintura de Isaac Liberato
quinta-feira, 12 de julho de 2012
A MÚSICA QUE OS MORTOS OUVEM
Foi numa crônica do psicanalista
Hélio Pellegrino que entendi o porquê gosto tanto de ver os defuntos sendo
velados.
Já faz tempo que tenho esta mania! Acho mesmo
que desde criança trago uma curiosidade que me faz visitar outros cômodos de
velórios ao invés de dedicar meu luto somente ao conhecido que fui destinar
minha atenção.
Hélio conta sobre o grande
recolhimento da feição do seu amigo no caixão, suave, como quem ouve uma
música. Pois é isto exatamente que me chama a ver os mortos: suas feições de
quem ouve música e como estão mortos, a música
que ouve é um segredo inviolável.
Mas existem os mortos que
percebemos nitidamente não estarem ouvindo música ou caso estejam, não é do seu
agrado. Seriam estes os verdadeiros desmerecedores das alegrias eternas?
A entrada da eternidade é o
recolhimento junto a uma música que se ouve em segredo. Podem reparar no
próximo velório... Caso seja o meu e eu tenha a oportunidade de escolher a
música (ou o repertório), não revelarei aqui com medo de ter meu direito
auditivo interdito pela audácia humana.
Mas a pressão do tempo nos nossos
dias já faz aparecer a economia até na bendita hora da encomendação das almas.
Falam até de velórios fast-foods - uma passadinha de carro numa janelinha, uma
velinha rápida por ali mesmo e pronto – até a morte foi cooptada pela
praticidade...E nesta possibilidade higienizada demais, eficiente demais, como fica o morto abandonado ouvindo sua
música em recolhimento? Sim, porque apesar do seu recolhimento, a outra parte
essencial deste acontecimento é o mistério da música que ouve para nós. Sem a
presença dos queridos, acredito sinceramente que este momento tão especial ao
desencarnado, esteja frontalmente ameaçado.
domingo, 22 de abril de 2012
Antes das tribos guaranis
viviam os seus ancestrais.
Fui amigo íntimo de um deles.
Conhecemo-nos no baile de máscaras de Romeu e Julieta
Presenteei-lhe com um livro de Shakespeare
e ele a mim com um fumo especial...
Findada a festa
Retiramos as meia-máscaras
e ficamos horas a contemplar o presente
fui visto do alto da escrivaninha
por um rolo de fumo que me media de ângulos diferentes
me deixei ser visto por aquele presente
Deste dia em diante
indesejo as trocas de conhecimento,
a não ser aquelas que vem se deitar na minha casa
dividem comigo pão,
fastio e aniversários
edu
Giogio De Chirico - "The Philosopher and poet"
edu
Giogio De Chirico - "The Philosopher and poet"
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Ontem fui ao teatro ver Concerto de Ispinho e Fulô
Não quero ir ao teatro reter informações e nem à reboque, ganhar mensagens...
Informações sobre a miséria, sobre a fome, já temos de montão e já ficou bem provado que saber das coisas é só uma parte da novela... A parcela urubu da imprensa nos despeja litros de sangue na cabeça todos os dias. Esvoaçam-se diante de cadáveres, alimentando-se tal como esta politiqueira engorda com os resíduos das tantas coisas que sofremos.
Mas lá, em cena, a vida se dilata tanto, que as vezes, torna as paisagens deste encontro, quase que inexprimíveis. É na platéia onde sentimos na alma as vibrações que nos conectam às lutas e festas mais arcaicas. A capacidade infinita de resistir, amar, lutar... É solidão e irmandade esta experiência de ser platéia, na medida em que não sabemos por quais recantos da nossa existência estão sendo conduzidas tantas imagens poéticas e quando é que elas se refletirão na nossa existência.
Esta foi a quarta ou quinta vez que assisto o Tijolo fazendo este trabalho impecável., desta vez, sabendo que há dois dias a comunidade de Pinheirinhos, em São José dos Campos, foi brutalmente invadida pela polícia. O espetáculo também nos conta uma história verídica do sítio Caldeirão que foi espisinhado pelo poder militar... e nenhuma vírgula na nossa história oficial.
sábado, 14 de janeiro de 2012
AMO A SOLIDÃO
Gosto de andar nos desertos imensos
pelas sarças sagradas, vendo as tardes
cheias de cordeiros e de mulheres morenas
que vão buscar água nas cisternas distantes
onde moram as estrelas do ocaso.
Gosto de ir pelos lagos onde a verdade ainda mora
e a universal rede de Cristo colhe peixes nas águas.
Amo a solidão das montanhas donde a palavra descia
e o gesto bom descia para as crianças pobres.
Amo clamar a Deus nessas tardes longínquas
cheias de salmos e de camelos mansos.
Amo a velha paisagem bíblica
que inda há de baixar sobre a terra cansada
para o sossego dos olhos esmagados.
Amo as terras de Deus onde os profetas andaram
e onde meu pacto fiz com a suprema Presença
e serei holocausto ante a Força das forças.
Jorge de Lima
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
ESTADOS DA ÁGUA
Deixa-me esvaziar o mar esta noite
Trago garrafas e copos
mas a grande parte d’água
tirarei com as mãos
Jogo, com testemunhas notívagas,
Gota a gota,
E por vezes,
Lambendo o sal,
Que é para ter fé e força nesta jornada
Deixa-me esvaziar o mar esta noite...
Não... já nem te peço
Por certo tua resposta seria navegar
Surfar
Mergulhar
Conhecer alguma espécie rara destas tantas que nadam aqui
Me entregarias remos caros,
Barcos artesanais, destas madeiras que acho tão bonitas...
Tudo para turvar minha vista diante da noite e do pacto que tenho com ela
Desviem os olhos dos meus e voltem a cear,
Saio sem estardalhaço pela porta mais quieta que houver
A água me chama,
O trabalho é árduo
Olhem por algum vitral os pingos dançando pelo ar
Migrando desta terra infeliz.
Assistam ao espetáculo aquático
Estas águas não voltarão... e o que serão destas margens?
eu,
Se sobreviver,
Corro debatendo-me sem ar,
Em busca de qualquer riacho,
Córrego,
Poça,
Qualquer espelho d’água
Filho de tanto jorro.
De outra forma,
Não quero, nem posso mais pensar neste oceano
ele me mata todas as vezes que eu o olho nu
sem anunciar sequer um invento
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