terça-feira, 2 de abril de 2013

auto-retrato

O bicho que em mim habita
é algo entre o cão e o gato
Peito pra fora
atacante, entregue,
como de um cão
Peito contido
interior, consigo,
como de um gato

Sou este híbrido
latino-mialo
bichano-canilo
entre o telhado
e a casinha

domingo, 19 de agosto de 2012

em cima de quem

Nasceu en 1949
32 anos depois já tinha a vida arranjada
salário, putas, filhos, chácara e cama
7h20 cruzava a pracinha indo,
cabelo molhado
18h32 cruzava a pracinha vindo,
testa franzida
Uma existência inteira nesta dança entre o cabelo e a testa
Na sola do sapato cego
assassinou cravínias, beijos e muitos gerânios ainda brotos
Um massacre silencioso jamais noticiado
Casas compradas, contratos assinados
esbanjos em churrascarias
e em tudo isto 
a testemunha oculta selada entre a borracha e o azulejo

Morreu em 1986
Difícil é a semana em que não ornamentam seu descanso
com cravínias, beijos, gerânios e cravos
As florzinhas parecem até achar graça
desta roda gigante que é o mundo





Pintura de Isaac Liberato

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A MÚSICA QUE OS MORTOS OUVEM



Foi numa crônica do psicanalista Hélio Pellegrino que entendi o porquê gosto tanto de ver os defuntos sendo velados.
 Já faz tempo que tenho esta mania! Acho mesmo que desde criança trago uma curiosidade que me faz visitar outros cômodos de velórios ao invés de dedicar meu luto somente ao conhecido que fui destinar minha atenção.
Hélio conta sobre o grande recolhimento da feição do seu amigo no caixão, suave, como quem ouve uma música. Pois é isto exatamente que me chama a ver os mortos: suas feições de quem ouve música e como estão mortos, a música  que ouve é um segredo inviolável.
Mas existem os mortos que percebemos nitidamente não estarem ouvindo música ou caso estejam, não é do seu agrado. Seriam estes os verdadeiros desmerecedores das alegrias eternas?
A entrada da eternidade é o recolhimento junto a uma música que se ouve em segredo. Podem reparar no próximo velório... Caso seja o meu e eu tenha a oportunidade de escolher a música (ou o repertório), não revelarei aqui com medo de ter meu direito auditivo interdito pela audácia humana.
Mas a pressão do tempo nos nossos dias já faz aparecer a economia até na bendita hora da encomendação das almas. Falam até de velórios fast-foods - uma passadinha de carro numa janelinha, uma velinha rápida por ali mesmo e pronto – até a morte foi cooptada pela praticidade...E nesta possibilidade higienizada demais, eficiente demais,  como fica o morto abandonado ouvindo sua música em recolhimento? Sim, porque apesar do seu recolhimento, a outra parte essencial deste acontecimento é o mistério da música que ouve para nós. Sem a presença dos queridos, acredito sinceramente que este momento tão especial ao desencarnado, esteja frontalmente ameaçado. 

domingo, 22 de abril de 2012

Antes das tribos guaranis
viviam os seus ancestrais.
Fui amigo íntimo de um deles.
Conhecemo-nos no baile de máscaras de Romeu e Julieta
Presenteei-lhe com um livro de Shakespeare
e ele a mim com um fumo especial...
Findada a festa
voltamos cada qual ao seu habitat
Retiramos as meia-máscaras
e ficamos horas a contemplar o presente
fui visto do alto da escrivaninha
por um rolo de fumo que me media de ângulos diferentes
me deixei ser visto por aquele presente
Deste dia em diante
indesejo as trocas de conhecimento,
a não ser aquelas que vem se deitar na minha casa
dividem comigo pão,
fastio e aniversários


edu



                                                                                                   Giogio De Chirico - "The Philosopher and poet"




quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ontem fui ao teatro ver Concerto de Ispinho e Fulô

Não quero ir ao teatro reter informações e nem à reboque, ganhar mensagens...
Informações sobre a miséria, sobre a fome, já temos de montão e já ficou bem provado que saber das coisas é só uma parte da novela... A parcela urubu da imprensa nos despeja litros de sangue na cabeça todos os dias. Esvoaçam-se diante de cadáveres, alimentando-se tal como esta politiqueira engorda com os  resíduos das tantas coisas que sofremos.
 Mas lá, em cena, a vida se dilata tanto, que as vezes, torna as paisagens deste encontro, quase que inexprimíveis. É  na platéia onde sentimos na alma as vibrações que nos conectam às lutas e festas mais arcaicas. A capacidade infinita de resistir, amar, lutar... É solidão e irmandade esta experiência de ser platéia, na medida em que não sabemos por quais recantos da nossa existência estão sendo conduzidas tantas imagens poéticas e quando é que elas  se refletirão na nossa existência.



Esta foi a quarta ou quinta vez que assisto o Tijolo fazendo este trabalho impecável., desta vez, sabendo que há dois dias a comunidade de Pinheirinhos, em São José dos Campos, foi brutalmente invadida pela polícia. O espetáculo também nos conta uma história verídica do sítio Caldeirão que foi espisinhado pelo poder militar... e nenhuma vírgula  na nossa história oficial.

sábado, 14 de janeiro de 2012

AMO A SOLIDÃO



Gosto de andar nos desertos imensos
pelas sarças sagradas, vendo as tardes
cheias de cordeiros e de mulheres morenas
que vão buscar água nas cisternas distantes
onde moram as estrelas do ocaso.
Gosto de ir pelos lagos onde a verdade ainda mora
e a universal rede de Cristo colhe peixes nas águas.
Amo a solidão das montanhas donde a palavra descia
e o gesto bom descia para as crianças pobres.
Amo clamar a Deus nessas tardes longínquas
cheias de salmos e de camelos mansos.
Amo a velha paisagem bíblica
que inda há de baixar sobre a terra cansada
para o sossego dos olhos esmagados.
Amo as terras de Deus onde os profetas andaram
e onde meu pacto fiz com a suprema Presença
e serei holocausto ante a Força das forças.

Jorge de Lima

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

ESTADOS DA ÁGUA

Deixa-me esvaziar o mar esta noite
Trago garrafas e copos
mas a grande parte d’água
tirarei com as mãos
Jogo, com testemunhas notívagas,
Gota a gota,
E por vezes,
Lambendo o sal,
Que é para ter fé e força nesta jornada

Deixa-me esvaziar o mar esta noite...
Não... já nem te peço
Por certo tua resposta seria navegar
Surfar
Mergulhar
Conhecer alguma espécie rara destas tantas que nadam aqui
Me entregarias remos caros,
Barcos artesanais, destas madeiras que acho tão bonitas...
Tudo para turvar minha vista diante da noite e do pacto que tenho com ela

Desviem os olhos dos meus e voltem a cear,
Saio sem estardalhaço pela porta mais quieta que houver
A água me chama,
O trabalho é árduo
Olhem por algum vitral os pingos dançando pelo ar
Migrando desta terra infeliz.
Assistam ao espetáculo aquático
Estas águas não voltarão... e o que serão destas margens?
eu,
Se sobreviver,
Corro debatendo-me sem ar,
Em busca de qualquer riacho,
Córrego,
Poça,
Qualquer espelho d’água
Filho de tanto jorro.

De outra forma,
Não quero, nem posso mais pensar neste oceano
ele me mata todas as vezes que eu o olho nu
sem anunciar sequer um invento